Pular para o conteúdo

Uma vida reconstruída · O Atlas

Fragmentos de Contos · vidas fictícias curadas pelo Arquivo

O ferroviário cujo livro nunca tremeu

À TabelaPortugal1963–19916 fragmentos

Por trinta e nove anos, um agente de estação manteve o livro de um pequeno apeadeiro da linha do Tua sem um dia em falta — inclusive na noite em que a mulher morreu enquanto ele segurava o cargueiro pelos minutos do regulamento. O documento mais terrível do arquivo é o que foi escrito com mão firme.

  1. 01

    As contas no verso

    Um impresso do telégrafo com deveres de escola no verso, Brunheda · por volta de 1963

    Impresso 14-B da companhia, apeadeiro de Brunheda

    Mensagem de serviço, 11h40. Misto descendente com oito minutos de atraso desde o Tua. Coluna d'água em ordem. Mala do correio pronta para o das 15h10. Nada mais.

    No verso, a lápis, uma letra inteiramente outra: sete vezes sete, depois vezes oito, depois vezes nove, cada conta tentada duas vezes e corrigida uma. Abaixo delas um nome — Graça — treinado três vezes, o rabo do ç ficando mais seguro a cada tentativa.

    O apeadeiro guardava as horas da aldeia, e uma menina fazia os deveres no balcão do telégrafo enquanto os trens eram lançados no livro. O impresso foi arquivado pela mesma mão que punha os sinais. Foi guardado pelo lado errado.

    B. Taveira, agente

  2. 02

    Os minutos do regulamento

    O livro que o inquérito marcou, Peso da Régua · Inverno de 1964

    Livro da estação, apeadeiro de Brunheda — 2 a 3 de fevereiro de 1964

    2 de fevereiro. 18h42, último serviço descendente, passou na tabela. 22h30, lampiões apagados. 3 de fevereiro. 00h34, telegrafado ao médico, duas estações abaixo; sem serviço antes do primeiro trem. 01h48, cargueiro da noite previsto; sinais postos. 01h56, cargueiro retido os minutos do regulamento; liberado, correto. 06h12, primeiro trem que sobe; o médico a bordo.

    Os lançamentos estão na letra de sempre, telegráfica e correta, e não tremem em parte alguma da página. O inquérito da companhia leu este livro e devolveu uma linha: procedeu segundo o regulamento.

    As reorganizações destruíram depois anos inteiros dos livros impecáveis deste homem, por tabela de retenção. Este volume foi guardado porque o inquérito o havia marcado. Trinta e nove anos sem um dia em falta sobrevivem sobretudo como a única noite que ele teria arrancado.

    B. Taveira, agente

  3. 03

    O despacho, nas palavras dele

    A carta de um pai depois do trem da manhã, guardada no Porto · Outono de 1972

    Graça,

    Seu trem partiu às 18h07, no minuto. Fui eu que dei a bandeira — se a linha há de levar você, que leve pela minha mão, e corretamente.

    Escreva pelo correio da manhã e a carta me alcança no das 15h10; sou eu que apanho a mala em que ela viaja, de modo que as suas cartas chegarão a mim como você foi: por estas mesmas mãos.

    O jardim vai bem. Estude. Cuidado com os relógios da cidade; não são de confiança como os nossos.

    Seu pai

  4. 04

    A mão que se soltou

    A carta de um pai na véspera de um casamento, guardada no Porto · Primavera de 1978

    Graça,

    O das 15h10 trouxe a sua carta com a hora da igreja dentro. Já combinei o substituto para sábado; desço no trem da manhã e volto no último. O jardim vai bem. Os tomates que a sua mãe estacou vieram cedo este ano.

    Digo aqui, porque amanhã vou ficar de pé, direito, num colarinho emprestado, e não vou conseguir nada: a sua mãe teria costurado o vestido ela mesma, e teria um orgulho de não caber em si. Despachei você para a cidade há seis anos, no minuto, e foi a coisa correta, e me custa todas as noites desde então.

    Ele é um homem sério; a enfermeira-chefe que você cita o aprova, e portanto eu também. Case com alegria. Estarei na plataforma de Campanhã como um passageiro qualquer — mas saiba que, de todos os trens que despachei para fora deste vale, você foi o único que eu quis chamar de volta.

    Seu pai

  5. 05

    A última página do livro

    A última página de um livro de estação, Brunheda · Verão de 1988

    Apeadeiro de Brunheda — 30 de junho de 1988

    05h50, sinais postos para o misto da manhã. 06h12, mala do correio apanhada em marcha. 15h10, serviço de passageiros, dois descem, um sobe, visita do médico anotada. 18h42, último serviço passou, na tabela.

    18h50, lampiões apagados. Livro encerrado pelo abaixo-assinado, que lançou o seu primeiro movimento no avô deste livro em 3 de março de 1949 e não tem nada a registrar.

    Nada a registrar, em trinta e nove anos, além de tudo. O apeadeiro fica em boa ordem. O jardim está regado.

    B. Taveira, agente

  6. 06

    A rede vai-se primeiro

    Uma ordem de encerramento da linha de cima, Bragança · Inverno de 1991

    Ordem de serviço da companhia — troço de Bragança, dezembro de 1991

    O tráfego na linha acima de Mirandela fica suspenso a partir do dia 15 do corrente, todas as categorias. Os postos com pessoal no troço afetado são encerrados e o seu equipamento recolhido. Os livros de tráfego devem ser encerrados a traço, datados e entregues na repartição distrital.

    O tráfego postal das localidades do troço afetado passa a transporte rodoviário. Os passes são reembolsados no balcão emissor. O pessoal é recolocado conforme a lista anexa; os arrendamentos das instalações encerradas serão tratados em ofício à parte.

    As aldeias da lista anexa não se haviam movido. Os poços, as escolas, as plataformas estavam onde estavam desde que os trilhos chegaram. A ordem não é sobre elas; é sobre uma linha que estava de partida — e abaixo de Mirandela, um velho agente de estação a leu como quem lê o tempo subindo o vale.

    Pela Direção de Exploração

Esta vida passou por lugares reais. Deixe uma carta sua por perto.

Deixar uma carta por aqui