Uma vida reconstruída · O Atlas
Fragmentos de Contos · vidas fictícias curadas pelo Arquivo
O caderno de um contrabandista com os rapazes que ele salvou
“O Livro dos Nomes”✦Spain✦1957–2001✦6 fragmentos
Na raia entre Portugal e Espanha, um contrabandista quebrou a primeira regra do ofício — nunca guardar papel — para esconder um livro de nomes: trinta e um rapazes convocados atravessaram a fronteira a pé para que a guerra não os tivesse. Um nome, levado em 1967, ele nunca se perdoou.
- 01
Língua de mercearia
Um bilhete de mercearia guardado por um vizinho, San Martín del Pedroso · por volta de 1957
Um papel dobrado, guardado na Espanha
As ovelhas passam quinta-feira. Nada mais: sem data, sem nome, uma letra simples e cuidadosa, o papel dobrado pequeno o bastante para passar dentro de um aperto de mão.
Não é sobre ovelhas. Cinco bilhetes assim sobreviveram quarenta anos, todos do lado errado da raia, guardados pelo amigo cuja lanterna respondia da janela em frente. O homem que os escreveu sustentava que papel enforca gente, e por isso quase nada escreveu na vida; o que sobrevive da amizade é língua de mercearia, e a língua de mercearia é todas as cartas de que eles precisaram.
— sem assinatura
- 02
A página do adversário
Uma página de ronda do arquivo do adversário, Bragança · Primavera de 1966
Livro de rondas, guarda fiscal — setor da raia, março de 1966
Noites do dia 1 ao 31, rondas conforme a escala. Rotas conforme designação do posto: o caminho da capela, a veiga do rio, o trilho de cima por turnos. Horas conforme lançado, rubricadas por cada dupla no regresso. No mês: nada a reportar.
Uma linha anota uma mula ouvida depois da meia-noite do dia 19, atribuída ao lado de San Martín e não perseguida. Uma linha anota arame consertado nos marcos. Os carimbos estão em ordem. A página está rubricada pelo comandante do posto e encerrada a traço.
O Estado guardou registro perfeito do homem que quase nenhum guardou — rotas, horas, tempo, rubricas, vinte anos de noites arquivados pelo adversário. Para março de 1966, o registro da fronteira é o registro de nada acontecendo. O que aconteceu naquele mês está escrito noutro livro, duas aldeias adiante, no fundo falso de uma arca de grão.
Rubricado, o comandante do posto
- 03
Uma praça, nenhuma mensagem
Um postal de uma praça, sem mensagem, Guadramil · por volta de 1976
Um postal, sem assinatura — guardado em Guadramil
A frente é uma praça de vila em algum lugar da França: plátanos, um chafariz, toldos de café, o canto de uma igreja. O verso traz os selos da travessia, o endereço desta casa, e nenhuma mensagem. Nem uma palavra.
Postais assim chegaram de tempos em tempos ao longo dos anos, da França e do Luxemburgo — praças, estações, um porto — nunca assinados. O homem desta casa os entendia, e a mulher dele os guardava. Um postal sem mensagem diz apenas: vivo, e em algum lugar. Vindo de rapazes cuja partida podia enforcar um homem por papel, isso era tudo o que havia para dizer.
— sem assinatura
- 04
A condolência através da raia
Uma condolência através da raia, Guadramil · Inverno de 1989
Senhora Leocádia,
Contaram-me no mercado de Alcañices, na terça, que o Serafim se foi. Quarenta anos aquele homem e eu fomos amigos, e nunca pusemos uma palavra no papel em todos eles, porque papel enforca gente. Então esta é a primeira carta entre as nossas casas, e chega quando já não pode lhe fazer mal.
Acendi a lanterna na minha janela naquela noite — as duas luzes, as que queriam dizer venha. Ele não podia vir, eu sei. Acendi assim mesmo, e fiquei ao lado delas, e deixei que ardessem até o fim. A fronteira também está morrendo, dizem na praça, de uma coisa chamada Europa. Ela devia ter tido a decência de morrer primeiro, enquanto ainda podia poupar-lhe algumas das noites.
Se houver qualquer coisa de que uma viúva precise deste lado — mulas, braços para o campo, dinheiro, que entre a casa dele e a minha nunca se contou direito mesmo —, mande recado pelo rapaz que traz o queijo. E acenda uma vela por ele do seu lado da raia, senhora. Eu acendo uma do meu. Ele sempre disse que de qualquer dos lados a mesma luz se vê.
Ovidio
- 05
A resposta da viúva
Uma resposta guardada do outro lado da fronteira, Alcañices · Inverno de 1989
Ovidio,
Você escreve que você e o meu Serafim nunca puseram uma palavra no papel em quarenta anos, porque papel enforca gente. Enforca. Estou velha, a fronteira está morrendo debaixo das nossas janelas, e daqui em diante não penduro mais nada além de roupa — então aqui vão as palavras, todas de uma vez.
Ele guardou um papel a vida inteira, no fundo falso da arca do grão. Um livro de nomes. Os nomes são rapazes, Ovidio — trinta e um, vivos na França e no Luxemburgo e onde mais for, homens feitos, com filhos, por causa de um caminho que ele conhecia e das noites que ele escolhia. O café pagava o pão. Os nomes pagavam o homem.
Acenda uma vela do seu lado da raia. Deste lado a chama é igual — ele sempre disse.
Leocádia
- 06
O livro das passagens
Um livro de nomes escondido, Guadramil · Outono de 2001
Do livro das passagens — os últimos anos
Março de 1966. F.T., desta freguesia. Para a França, pelo caminho velho do volfrâmio. Pago em parte, o resto perdoado — pelas telhas. Entregue.
Maio de 1969. R., dezenove anos, de Vinhais, convocado para a Guiné. Lua forte demais no dia 14; passou no 17. Não levou nada da mãe. Entregue.
Outubro de 1974. Não há mais lançamentos; a guerra acabou. Conta final, nesta letra e em nenhuma outra: trinta e um nomes, trinta e um entregues, um levado — Adelino, fevereiro de 1967, Deus o guarde e me perdoe o caminho que escolhi naquela noite.
S.B.
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