Uma vida reconstruída · O Atlas
Fragmentos de Contos · vidas fictícias curadas pelo Arquivo
O refrão de um emigrante, e a verdade que ele nunca mandou
“As Cartas de França”✦Portugal✦1971–1985✦2 fragmentos
Pelos anos 1970 e 80, um homem escreveu para casa desde a França num refrão que nunca mudou — e rascunhou uma única vez, sem nunca enviar, a verdade que corria por baixo. O refrão e o rascunho, enfim lado a lado.
- 01
O refrão
Uma entre vinte e cinco anos de cartas, Guadramil · Verão de 1971
Minha querida Rosa,
Vou de boa saúde, graças a Deus; o trabalho é pesado. Segue com esta um vale de trezentos francos — entregue ao mestre, para as telhas.
Beije as crianças por mim. Ano que vem, se Deus quiser, eu volto.
Firmino
- 02
A verdade nunca enviada
Nunca enviada, um apartamento de dois nomes em Champigny · por volta de 1985
Rosa,
Há coisas que a gente escreve e não manda. Já não sei voltar.
A aldeia que deixei já não existe, e o homem que a deixou também não.
Você sabe, não sabe. Perdoe o que eu não conto.
Firmino
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