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Uma vida reconstruída · O Atlas

Fragmentos de Contos · vidas fictícias curadas pelo Arquivo

O fotógrafo que não está em nenhuma das suas fotografias

O RetratistaPortugal1969–19902 fragmentos

Um retratista de vila registrou o rosto de todos, menos o próprio. O que resta dele é o espaço em negativo na memória de mil outras pessoas — o homem atrás da câmera, reconstruído a partir da multidão que ele enquadrou.

  1. 01

    O aerograma censurado

    Um aerograma censurado vindo da Guiné, Mirandela · Inverno de 1969

    Pai,

    Vamos de boa saúde, graças a Deus, e espero que esta encontre o senhor e a mãe do mesmo jeito. O calor daqui é de um tipo que vocês não conhecem; as chuvas são piores. Não posso dizer onde estamos.

    [sete palavras removidas pela lâmina do censor]

    Diga à mãe que as noites são o mais difícil, mas não diga por quê. E faça uma coisa por mim, pai — o retrato de farda, a chapa: queime. Quando eu voltar, não haverá mais retratos meus. É a sério.

    Abel

  2. 02

    O único retrato

    A carta que levou o único retrato, Rüsselsheim · Outono de 1990

    Celeste, minha filha,

    Você me pede, como pede há vinte anos, uma fotografia do seu pai. Filha, fotografei esta terra por quarenta e quatro anos — cada noiva, cada soldado, cada criança de branco — e não existe fotografia minha. Em casa de ferreiro, o espeto é de pau.

    Hoje fechei a loja. Antes de descer a placa, fiquei onde os meus clientes ficavam, debaixo das minhas próprias luzes, e fiz uma chapa.

    Mando o único rosto que tenho. Agora você tem mais de mim do que a terra inteira.

    Seu pai

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