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O Não Dito · O Limiar

Como escrever quando disseram que o seu tempo é curto

Um diagnóstico pode mudar a aritmética de uma vida da noite para o dia. Como escrever de dentro dessa notícia — o medo, as palavras inacabadas, e o que você mais precisa dizer.

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O exame, a consulta, a frase que partiu a sua vida em antes e depois. De repente o tempo — a coisa que você gastava como se o estoque fosse infinito — tem um número ao lado, ou ao menos uma sombra. Todo mundo ao seu redor tem boa intenção e ninguém sabe o que dizer, então a sala se enche de logística e alegria, e a coisa enorme e silenciosa fica sem dizer no meio de tudo: isto está acontecendo, e está acontecendo com você.

Não existe jeito certo de sentir por dentro disto, e esta página não vai fingir tornar suportável. Ela oferece só o que a escrita pode oferecer honestamente aqui: um lugar para pôr o medo que ninguém mais consegue segurar, e um jeito de alcançar as palavras que você não quer deixar por dizer enquanto a hora de dizê-las é exatamente agora.

Por que isso acontece

Quando o tempo encolhe, a mente é inundada de uma vez por duas enchentes que não se misturam: puro terror, e uma clareza súbita e dolorida sobre o que de fato importou o tempo todo. Ditas em voz alta, elas sobrecarregam as pessoas a quem você as diria — elas recuam, tranquilizam, mudam de assunto para poupar você e a si mesmas. Os sentimentos então voltam para dentro, sem dizer, que é o lugar mais solitário onde podem estar. A página não recua. Ela consegue segurar o tamanho inteiro disso quando um rosto não consegue.

Quem senta com os que estão morrendo — profissionais de cuidados paliativos, capelães, equipes de hospício — relata os mesmos arrependimentos quase universais, e quase nenhum é sobre feitos por realizar. São sobre palavras: amor não dito com clareza, perdão retido, a verdade de uma relação nunca dita em voz alta. A escrita é como essas palavras são encontradas e liberadas enquanto ainda há uma mão para escrevê-las e uma pessoa para recebê-las. Não é um substituto das conversas. Muitas vezes é o ensaio que enfim as torna possíveis.

E há uma clemência particular em escrever quando o tempo é curto: ela deixa você definir os termos. Pessoalmente você precisa proteger quem ouve, administrar as lágrimas dessa pessoa, encenar uma força que talvez não sinta. Na página você pode estar plenamente com medo, plenamente com raiva, plenamente terno, na ordem em que vier — e então decidir, com calma, quais palavras levar para a sala e quais simplesmente pousar no chão. A carta vira ao mesmo tempo o lugar privado para o terror e o canal limpo para o amor. As duas coisas são suas para guardar ou dar.

O que costumamos fazer

  • Enchemos os dias de logística e consultas, e nunca deixamos a coisa enorme ser dita.
  • Protegemos todo mundo ao redor encenando uma paz que não sentimos, e enlutamos sozinhos dentro da encenação.
  • Supomos que haverá tempo para as conversas de verdade depois, quando “depois” é a única coisa sem garantia.
  • Engolimos o medo porque não há onde pô-lo sem assustar as pessoas que amamos.
  • Guardamos as palavras mais importantes para um momento final perfeito que a doença raramente entrega na hora certa.

O que precisamos de verdade

Você precisa de um lugar que consiga segurar o medo sem precisar que você seja corajoso. Não as pessoas que você protege, não os profissionais que administram o plano — uma página, onde o terror e a fúria e o luto podem ter exatamente o seu tamanho real, sem edição, sem ninguém para tranquilizar. Segurado ali, o medo para de precisar vazar de lado, e você recupera um pouco de si para gastar no que de fato quer: o amor, o tempo, as palavras.

E você precisa alcançar as palavras não ditas enquanto alcançar ainda é possível — começando por quem vier à mente primeiro, porque esse instinto costuma estar certo. Diga o amor com clareza. Ofereça ou peça o perdão. Conte a verdade da relação que você nunca de fato contou. Escreva primeiro se escrever for mais fácil; algumas destas cartas serão lidas em voz alta, outras entregues, outras guardadas para depois. A ordem e o método são seus. Só a hora não é — e a hora é agora.

O ritual

  1. Dê ao medo uma página só dele — escreva-o em tamanho real, sem ninguém ali para tranquilizar. Não precisa ser corajoso.
  2. Faça a pergunta que esclarece: se houvesse palavras que você não suportaria deixar por dizer, de quem é o nome que vem primeiro?
  3. Escreva a essa pessoa — o amor, com clareza; o perdão, oferecido ou pedido; a verdade, enfim.
  4. Depois o próximo nome, e o próximo. Deixe a lista ser tão curta ou tão longa quanto honestamente for.
  5. Decida, com calma, o que dizer em voz alta e o que deixar como carta. As duas coisas contam.
  6. Guarde as páginas do medo para você, se quiser. Entregue o amor enquanto a mão ainda consegue entregar.

Uma forma para começar

Não é um modelo — é um andaime. Leve o que sustenta, deixe o resto.

O medo, sem administrar

Não vou ser corajoso nesta página. O que eu de fato estou sentindo é …

O nome que veio primeiro

Quando me perguntei quem eu não poderia deixar por dizer, o primeiro nome foi …

O amor, sem enfeite

Então aqui está, sem vestir de gala: …

O perdão

E isto, que não quero carregar mais adiante, nem fazer você carregar: …

A verdade, enfim

A coisa sobre nós que eu nunca disse em voz alta, e quero que você tenha: …

O que se pergunta nesta porta

Eu nem consigo encarar isto. É errado não querer escrever nada?

Não é errado de forma alguma. Não há obrigação de escrever, de ser profundo, ou de chegar à aceitação — essas são histórias que outras pessoas contam sobre morrer, e você não deve nenhuma delas. Em alguns dias a única frase honesta é “hoje não consigo”, e isso é uma entrada completa e legítima. Não escreva nada até, ou a menos que, ajude. E, por favor, não carregue isto só num caderno: as equipes de paliativos e hospício, os profissionais que se especializam em doença grave, e as pessoas que te amam existem exatamente para este peso, e buscá-los não é desistir — é se recusar a ficar sozinho dentro da coisa mais difícil. A Sala segura o que você ainda não consegue dizer. Ela nunca deve ser o único lugar onde você diz.

Corredores a partir daqui